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Imigrantes
Caboverdianos no Brasil
As
relações entre Brasil e Cabo Verde tiveram início muito antes dos portugueses
aqui chegarem.O primeiro episódio que estabeleceu um elo entre os dois
paises foi quando da instituição do Tratado de Tordesilhas, que para
evitar o confronto entre Portugal e Espanha pela posse do novo continente,
tratado este que determinava que as terras que estivessem a 370 léguas
a Oeste do Arquipélago de Cabo Verde pertenceriam a Espanha e a Leste
desta linha imaginária, a Portugal, onde fatalmente se encontraria o
Brasil.
Quando do episódio do descobrimento do Brasil, uma das caravelas da
esquadra de Cabral comandada por Vasco de Ataíde naufragou, desaparecendo
misteriosamente durante a noite ao largo da ilha de São Nicolau em Cabo
Verde, onde aportaram para tomar água. Outros aspectos deste relacionamento
que a história omite é o fato de ter sido Cabo Verde o principal entreposto
de escravos vindos para o Brasil, ela não menciona tampouco que os escravos
após serem capturados nas costas africanas eram levados a Cabo Verde
onde passavam por um processo de ladinização, isto é, eram lá cristianizados
e treinados para o trabalho escravo antes de seguir para a América,
bem como não menciona o fato de ter sido Cabo Verde uma estação experimental,
de onde vieram vários produtos hoje populares no Brasil como o milho,
mandioca, cana de açúcar, coqueiros, arroz, inhame, e também as primeiras
cabeças de gado.
Provavelmente muitas pessoas originárias de Cabo Verde estiveram no
Brasil anteriormente, porém, o primeiro registro escrito que dá conta
da presença de caboverdianos no Brasil é o encontrado nos jornais da
época relatando a façanha de um caboverdiano chamado Simão Salvador,
natural da ilha de Santo Antão, que no Brasil Império, tornou-se herói
após salvar cerca de 13 pessoas do naufrágio de um navio a vapor onde
era tripulante. O ato heróico lhe valeu o direito de ser recebido pelo
próprio Imperador D. Pedro II que, por gratidão, homenageou-o erguendo
um busto em praça pública, preservado ainda em nossos dias na cidade
do Rio de Janeiro. Assim como para várias outras localidades do mundo,
também para o Brasil e América do Sul em geral, os primeiros emigrantes
caboverdianos supõe-se ter aqui chegado como tripulantes de barcos baleeiros
que passavam por Cabo Verde a caminho do Atlântico Sul.Vindos principalmente
de São Nicolau, chegava a primeira geração de emigrantes caboverdianos
às cidades portuárias do Brasil (Santos e Rio de Janeiro eram as mais
procuradas) nas décadas de 20 à 40, ainda em navios a vela ou vapor
em busca de vida melhor, dada as condições pouco favoráveis de nossa
terra. Nas décadas de 50 e 60 chegaram vários emigrantes caboverdianos
vindos principalmente das ilhas de São Nicolau e São Vicente, fugindo
das várias secas e da fome que assolou o pais naquela época, através
de navios da Marinha Mercante Portuguesa, dentre eles o mais popular
chamava-se Vera Cruz.
Buscando na emigração tudo aquilo que Cabo Verde não lhes podia oferecer,
na década de 70 o Brasil era a escolha natural de vários emigrantes
caboverdianos, principalmente das ilhas de São Nicolau, São Vicente
e Santo Antão das quais vieram as principais correntes de emigração
para o Brasil. Vieram também nesta época (75/76) vários caboverdianos
que se encontravam em Angola que, por causa da guerra da independência,
tiveram que abandonar tudo o que possuíam naquele pais e refugiar-se
em outras localidades. Um grupo de refugiados se viu obrigado a atravessar
o Oceano Atlântico em pequenos barcos de pesca(três no total) e rumar
com poucos recursos para o Brasil. Este grupo de emigrantes estabeleceu-se
no sul do Brasil (Estado de Santa Catarina),onde reconstruíram suas
vidas e permanecem até hoje.
Para explicar a escolha do Brasil como pais de acolhimento, acreditamos
que vinham os emigrantes empolgados pelas maravilhas contadas deste
pais tropical pela tripulação de navios brasileiros que aportavam em
Cabo Verde vindo de ou voltando para o Brasil. Depois, a miséria em
Cabo Verde aliada ao fato de ser o Brasil um país promissor incentivava
a emigração. Mais tarde, o fato de já existir aqui uma colônia considerável
mais a facilidade da língua, tornava o Brasil um paraíso para os emigrantes
caboverdianos.
Os caboverdianos no Brasil espalharam-se por vários estados como São
Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Pernambuco e Bahia.
No estado de São Paulo concentraram-se nas cidades de Santos, onde exerciam
principalmente atividades portuárias, nas cidades de São Paulo, Santo
André e São Bernardo onde atuavam principalmente na indústria e no comércio.
No estado do Rio de Janeiro estabeleceram-se nas cidades do Rio de Janeiro,
Nova Iguaçu, Mesquita e São João de Meriti onde as principais atividades
também eram na zona portuária e indústria naval.
Muitos patrícios usaram a carta de chamada como instrumento para emigrar
para o Brasil, este documento era obtido através do Consulado de Portugal
e consistia num termo de responsabilidade pela pessoa que estaria sendo
beneficiada pelo documento. Através dele conseguia-se trazer um irmão,
a esposa ou até mesmo uma família inteira, deixada para trás, a espera
de oportunidade de também emigrar.
O casamento por procuração foi prática largamente adotada entre os emigrantes
caboverdianos. Muitos dos que emigravam deixavam em Cabo Verde o seu
"cretcheo" e após alguns anos de trabalho, casavam-se por
procuração, também emitida pelo consulado de Portugal e traziam então
legalmente o cônjuge.
A adaptação e o relacionamento com os brasileiros foram relativamente
fácil e rápida, pois era o Brasil um país que lhes oferecia todos os
direitos e oportunidades e felizmente era também um pais que não oferecia
nenhuma espécie de discriminação pelo fato de serem emigrantes.
Desde sempre os emigrantes caboverdianos se mostraram sérios, honestos
e incansáveis ao que se referia trabalho, dedicando-se ao máximo, unindo
inteligência e competência. Estas características lhes valeram a conquista
de um relativo prestígio nos meios que conviviam sendo até hoje respeitados
por estas qualidades. Por outro lado se identificavam de maneira tal
com os brasileiros, criando com eles laços de extrema amizade e confiança.
Assim que aqui chegava o emigrante caboverdiano mergulhava no trabalho
com as seguintes intenções: trazer a família que havia deixado a espera
de oportunidade para também emigrar; adquirir fundos suficientes para
a compra de um imóvel onde pudesse abrigar sua prole e regressar bem
sucedido a terra natal.
A verdade é que no primeiro objetivo era mais simples de se conseguir,
pois, além das próprias economias, sempre se podia contar com a solidariedade
dos irmãos caboverdianos. Já no segundo caso despendia-se muitos anos
de trabalho duro para juntar algum dinheiro que fosse suficiente para
a compra de uma casa e neste intervalo a família já havia aumentado,
os filhos crescido, e este processo todo inviabilizava uma viagem de
regresso a Cabo Verde. Muitos morreram sem ter tido a chance de regressar,
outros tantos ainda não tiveram esta oportunidade, alguns levaram mais
de 50 anos para rever Cabo Verde, principalmente pela crítica situação
financeira que atravessou o Brasil por vários anos e também pela não
existência de vôos diretos para Cabo Verde, tendo o emigrante que viajar
via Lisboa, o que tornava a viajem pouco acessível, dado ao seu alto
custo.Atualmente contamos com um vôo semanal direto à Ilha do Sal.
Durante a segunda metade da década de 70 o governo brasileiro fecha
as fronteiras para a emigração fosse ela de qualquer origem, ficamos
assim limitados a um número relativamente pequeno de conterrâneos.
A colônia caboverdiana em São Paulo consiste hoje mais ou menos 300
pessoas entre emigrantes e descendentes. No Rio de Janeiro estima-se
que exista semelhante número.
Atualmente as pessoas que emigraram jovens para o Brasil já se encontram
aposentadas, seus filhos formados em várias áreas e bem empregados.
Por muitos anos tem se tentado criar e manter o associativismo entre
os emigrantes caboverdianos. Existiram ao longo destes anos inúmeras
associações que não conseguiram se manter por vários fatores, dentre
eles está o fato de termos um número reduzido de patrícios.
De qualquer forma, continuamos trabalhando para manter sempre viva a
nossa cabovedianidade, através de nossas manifestações, onde tentamos
passar nossas tradições à nossos filhos e netos.
José Augusto do Rosário |